segunda-feira, 13 de setembro de 2010

o bico de bola

Trabalhei como vendedor em uma loja de artigos esportivos nos anos 90. Foi um período interessante no qual aprendi muitas coisas, sobretudo a lidar com o público. Tive clientes dos mais variados tipos, bolsos e humores; alguns famosos, como Zé Elias (então jogador do Corinthians), Rivaldo, Maguila, entre outros. Era curioso ver o fanatismo de alguns torcedores ao adquirir a camisa do seu time em época de decisão de campeonato. Lembro-me também de atender a corintianos e palmeirenses comprando camisas do Barcelona em 92 e do Milan em 93, só pra torcerem contra o São Paulo... Coitados, perderam seu dinheiro.
O dono infelizmente morreu, seu filho não quis mais tocar o negócio e a rede de lojas fechou. Era conhecida como a boutique dos esportistas, estava instalada nos principais shoppings de São Paulo e vendia artigos das grifes internacionais mais famosas, mas também vendia “bico de bola” (uma agulha para encaixar nas bombas de encher bolas); esse era o item mais barato da loja, custava o equivalente a dois Reais.
A comissão dos vendedores era de 1,5%, isto é, quem vendia um bico de bola mal pagava a tinta de caneta gasta na comanda, enquanto o colega ao lado podia vender um agasalho lacoste ou uma raquete head e fechar sua meta do dia. Quem já foi vendedor sabe do que eu estou falando. Desse ponto de vista, abordar alguém que dissesse – “Você tem bico de bola?” – não parecia nada interessante, no entanto, meu patrão exigia o melhor atendimento, total aplicação, ampla atenção, gentileza e prestatividade para com tais clientes, sob pena de perder o emprego. Seu conceito era o seguinte:
Quem compra um bico tem uma bomba, quem tem uma bomba tem uma bola, quem tem uma bola joga futebol e usa chuteira, meião, caneleira, camisa, calção... Quem joga futebol, joga com amigos que também usam chuteira, meião, caneleira, camisa... E quando precisar de qualquer um desses itens vai se lembrar de você.
A insensibilidade dessa visão pode perturbar um pouco, porém, removendo o aspecto mercantilista e interesseiro posso extrair um válido ensinamento acerca do valor das coisas consideradas pequenas. A atenção a mínimos detalhes é fundamental na construção de relacionamentos saudáveis.
Quão intangível é a repercussão de um simples bom dia? Que extensão um ingênuo sorriso é capaz de alcançar?
Devemos nos dedicar inteiramente às pessoas sem interesses e sem preconceito, oferecendo o melhor do que somos, do que temos e do que sabemos.
Quem nos pede um pequeno conselho ou faz uma simples pergunta, pode ser como quem compra um bico de bola, tornar-se um cliente em potencial – isto é, um verdadeiro amigo – ou não.
No que compete a nós, vamos fazer o melhor!

                                                                                                                                     Daniel Leite


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