"Quão grandes são os seus sinais, e quão poderosas a suas
maravilhas! O seu reino é reino sempiterno, e o seu
domínio, de geração em geração."
Daniel 4.3
O REINO DE DEUS. EIS A RAZÃO principal da vida e ministério
de Jesus Cristo. Em suas parábolas, seus ensinos, seus exemplos,
na própria essência da sua missão, vemos o reino de Deus
como questão central e objetivo primordial da sua pregação e obra.
Implantar esse reino, que não é deste mundo, constitui a obstinação
de Jesus até hoje. Cremos que, em comparação com a importância
dada ao reino por Jesus, em geral temos falado pouco,
estudado pouco, e entendido pouco do reino de Deus.
Mas o que é o reino de Deus? Como ele se manifesta? O que é
preciso fazer para entrar nele?
Uma das definições mais simples, porém mais elucidativas,
coloca o reino de Deus como “todo ambiente onde Deus reina”.
Onde quer que a vontade de Deus esteja sendo cumprida, aí se
manifesta o reino de Deus. Alguém já disse que o inferno é uma
confusão por ser um reino de muitas vontades. Mas, no reino de
Deus, só há lugar para uma vontade: a do Rei.
Nesse reino invisível, Deus cumpre o seu querer. Seu governo
cresce a cada dia. O reino avança nos corações, transforma vidas,
famílias, instituições, nações, a própria história. E o pré-requisito
para adentrarmos nesse reino é a completa submissão ao Rei. Não
há atalhos. A radicalidade desse reino é tal que somos chamados a
guardá-lo como o tesouro mais precioso de nossas vidas (Mt 13.44),
e a buscá-lo em primeiro lugar, sobre todas as outras coisas
(Mt 6.33). Vivemos tão-somente para que se estabeleça o governo
de Deus.
Uma outra definição, de Stanley Jones, estadista missionário na
Índia, aponta o reino como a “resposta total de Deus à necessidade
total do homem”.
A compreensão dessa verdade é fundamental para compreendermos
a grandeza da nossa missão. Somente a Igreja de Jesus é
capaz de ministrar em relação às necessidades integrais do homem.
Nenhum outro organismo ou instituição pode fazê-lo. Porque
estamos aqui, vivendo e servindo a cada dia em nossas comunidades,
deve haver mais do reino de Deus hoje do que havia ontem:
“Para que se aumente o seu governo e venha paz sem fim...” (Is 9.7).
O reino de Deus, que é revelado na pessoa de Jesus Cristo, deve
estar manifesto em cada aspecto da vida de um “cidadão” do reino.
Na vida devocional, na comunhão, no trabalho, no mercado público,
na escola, na universidade, no lazer, na família. Como o
apóstolo Paulo escreveu a Tito: “todas as coisas são puras para os
puros” (Tt 1.15); e, em outra ocasião, aos coríntios: “portanto,
quer comais, quer bebais, ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo
para a glória de Deus” (1 Co 10.31). O reino de Deus santifica o
comum.
A compreensão desses princípios aplicáveis individualmente
é fundamental para o desenvolvimento comunitário. Quando
INTRODUÇÃO / 19
entendemos que o reino de Deus é completo e abrangente, e não se
restringe apenas à vida devocional e às disciplinas espirituais, somos
livres para ministrar junto à comunidade em todas as áreas. E
isso, não como uma mera expressão de “trabalho social”, mas para
que o governo de Deus cresça e se estabeleça.
O que aconteceria às nossas vidas, famílias, comunidades e
nações se, num piscar de olhos, o reino de Deus se manifestasse em
toda a sua plenitude? Pessoas se converteriam a Ele e passariam a
conhecer o Deus verdadeiro. Relacionamentos seriam restaurados.
A prostituição e a violência acabariam. Haveria provisão para todos.
Enfermos seriam curados. A poluição teria fim. Justiça e paz
reinariam sobre a terra. Percebemos claramente que a chegada do
reino afetaria todas as áreas da nossa vida, da sociedade e da própria
criação. O reino de Deus é abrangente. Ora, como Igreja de Jesus
na terra, encarregados da implantação do reino, se realmente estivermos
empenhados na vinda do reino, haveremos de ter, também,
um ministério abrangente. O reino de Deus traz completa
transformação. Em outras palavras, não há como nos mantermos
comprometidos com o reino de Deus sem nos envolvermos em
questões de justiça social, denúncia do opressor, violência, prostituição,
miséria, saúde etc. Cabe a cada geração, em cada contexto,
discernir sabiamente as áreas críticas e trabalhar para devolver a Deus
o seu governo nessas áreas.
Porém, existe a realidade futura do reino. Sabemos que o governo
de Deus somente será completamente estabelecido quando
Jesus, o Rei, retornar para reaver aquilo que é seu de direito.
O que vivemos hoje é o reino do “agora mas ainda não”. O
reino que, em cooperação com Deus, ajudamos a construir “agora”,
para só vê-lo totalmente manifestado no futuro. No entanto,
essa aparente tensão não nos isenta de ansiar e trabalhar pelo reino
aqui e agora, o que fica claro no desafio deixado por Jesus na Parábola
das Dez Minas (Lc 19.11-27). No entendimento dos discípulos,
tudo o que eles teriam de fazer seria aguardar a chegada do
reino de braços cruzados, “visto [...] lhes parecer que o reino de
Deus havia de manifestar-se imediatamente”. Todos nós um dia
seremos confrontados com a pergunta do homem nobre da
parábola que partiu para uma terra distante: “o que você fez
com aquilo que eu lhe dei?”
Deus deseja expandir o seu reino. Ele é ofensivo em sua conquista,
e deseja usar nossos dons, talentos, habilidades naturais,
tempo, recursos e energia para efetivá-la. Tudo isso para que o reino
cresça e alcance as pessoas. Em Lucas 12.32 Jesus nos comunica:
“Não temais, ó pequenino rebanho; porque vosso Pai se agradou
em dar-vos o seu reino”. Talvez esta seja uma das afirmações
mais importantes da história. Reflete o prazer que o Rei tem em
estender a “justiça, e paz e alegria no Espírito Santo”, resultantes do
seu reinado, a todos quantos possa alcançar (Rm 14.17). Podemos
ansiar e trabalhar por esse reino sem medo nem dúvida de que
Deus quer mesmo o reino entre nós. É um reino aberto a todos
quantos desejam coroá-lo Rei.
Outra característica fundamental para nós, que trabalhamos ou
desejamos trabalhar com comunidades carentes, é o fato de o reino
estar fundamentado na compaixão, que emerge da essência do próprio
caráter de Deus. O Senhor, que tem prazer na misericórdia e
de cujo trono brota a compaixão para com os povos, nos chama a
esse reino, que tem a compaixão como um de seus alicerces —
uma compaixão bíblica, que é muito mais do que meramente “sentir
pena”, que nos chama a um compromisso pró-ativo de obediência
e ações práticas.
Por último, outra realidade irrefutável do reino é a sua eternidade,
a suprema verdade que revela o fato de o reino ser inabalável e
de prevalecer sobre todos os intentos humanos (Hb 12.28,29).
Esta certeza deve ser fator motivador para, a cada dia, nos vermos
mais e mais empenhados na construção daquilo que permanecerá
eternamente. Poderia haver projeto mais relevante para investirmos
as nossas vidas?
Podemos ter certeza de que um dia o fogo de Deus consumirá
todos os reinos humanos, para então revelar o inabalável reino de
Deus. Tudo aquilo que foi gerado em Deus para manifestar o se
governo permanecerá de pé e será estabelecido para sempre. Então
será completamente respondida a oração ensinada por Jesus e repetida
por milhões e milhões de discípulos — o pedido mais proclamado,
o clamor mais ouvido através dos séculos: “venha o teu
reino” (Mt 6.10)
Trecho do livro "Reino entre nós" ed ultimato.Mauricio Cunha e Beth Wood

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