sábado, 3 de outubro de 2009

Tatuagem é apenas vaidade?



Certa ocasião uma amiga me perguntou o que eu achava sobre tatuagens. Eu disse que depende e que cheguei a pensar em fazer uma, mas não sabia se queria mesmo. Foi então que ela disse algo que até hoje não esqueci. “Tatuagem deviria ser como um noivado” – normalmente as pessoas esperam pelo menos um ano antes de entrar em um casamento, elas esperam ter a certeza de que querem passar o resto da vida com aquela única pessoa.
O casamento e as tatuagens são decisões importantes (não no mesmo nível, é claro). Os dois eventos são de difícil retorno. Mesmo que haja como sair, será um processo de dor que vai deixar cicatrizes (literalmente no caso da tatuagem) ainda que se tente muito apagar essas experiências.
Hoje vemos uma nova tendência na apreciação das tatuagens. Até pouco tempo elas eram mais uma forma de rebelião ou protesto contra a sociedade, a família ou até mesmo a igreja; algumas tatuagens que eu via eram inclusive feias, rudimentares e mal feitas, não entendia o porquê de alguém passar pela dor de fazer uma tatuagem. Hoje, bem mais do que antes, tenho visto a tatuagem é uma forma de arte. É uma forma de colocar o que está dentro pra fora. Muitas vezes, tenho visto, que essa forma é linda e corajosa. Às vezes, quando estou assistindo televisão, passando os canais, eu pego um programa que fala especificamente sobre artistas de tatuagem que moram na Califórnia. No programa eles seguem as vidas de vários artistas e as pessoas a quem eles atendem. A história de uma jovem me chamou a atenção.
Essa moça, desde a adolescência, tinha se cortado por causa do jeito se sentia em ralação a si mesma. Ela não achava que ela tinha beleza, então para se livrar da raiva, começou a se cortar. Essa mutilação continuou até que ela foi para psicóloga e teve uma mudança de vida. Ela começou a se amar e de se olhar de uma maneira diferente, mas, mesmo assim, como um fantasma do passado, as cicatrizes em sua barriga mostravam uma parte escura de sua vida. Então ela procurou um estúdio de tatuagens e pediu que fizessem uma linda rosa para cobrir todas as suas cicatrizes. Quando terminou, ela compartilhou que a tatuagem era um jeito de mostrar o que ela agora sentia. Uma nova perspectiva na vida e no jeito que ela se olhava.

Quando eu percebi que eu queria ter uma tatuagem, eu comecei a avaliar o meu desejo. Quando eu conversava com várias pessoas, eu comecei a lembrar daquela frase em Eclesiastes que diz: "Tudo é vaidade". O escritor francês, Gustav Flaubert, disse certa vez: "Estou convicto de que a vaidade é a base de tudo e que finalmente, aquilo que nós chamamos de consciência, é somente a nossa vaidade intima". É uma coisa interessante de se pensar, imagine se a gente não agisse na base das nossas crenças, mas, sim da nossa vaidade? O jeito de nos expressamos, sendo "alternativo" é tudo um choro intimo para ser diferente de uma multidão sem rosto. A nossa vaidade nos diz para sermos diferentes! Mas isso tudo pode ser uma tendência do que as pessoas têm hoje em dia.

Sou noiva de uma tatuagem faz um ano e meio, mas de vez em quando me pergunto: "Porque quero ter essa tatuagem?" Quero ser sincera, e dizer que eu acho tatuagens “da hora” e algumas são realmente incriveis. Uma das minhas favoritas, que uma grande amiga tem, diz "Resgate" em Hindi. Tem uma organização que ajuda pessoas com problemas de depressão que se chama To Write Love on Her Arms, e uma das camisetas tem a palavra resgate em Hindi. É deslumbrante. E se tivesse pensando nisso antes, teria feito!

Mas, eu sei que se eu fizesse uma tatuagem, seria por causa da minha vaidade. Se um dia eu fizesse, eu queria que você uma mensagem do que eu sinto, não porque eu acho bonito.

A vaidade é algo complicado. A gente tenta alimentar-la todo dia. Queremos ser diferentes, ser vistos e muitas vezes cativar as pessoas. Então, escolhemos usar certas roupas, fazer certas atividades, dizer certas coisas. Tudo isso para a gente dizer ao mundo, "Oi! Estou aqui."

Mas, a tatuagem é arte. Cada pessoa tem as suas razões particulares para fazer uma tatuagem. E as histórias que eles contam pro trás delas, nos mostram um pouco da alma deles. Agora, do jeito que sou, prefiro ter uma tatuagem diferente rabiscada a cada semana, que tomando banho, facilmente sai.


Por Aline Maira

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